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As ‘mamãs’ do Wino wa Cikota
Fevereiro de 2006:
...Era o dia da partida: 11 horas da manhã, céu meio encoberto e o ar húmido. Atrasado, o avião que nos levaria de volta a Luanda só chegaria ao Lwena perto das 3 da tarde. O tempo sobrava.
Surgindo, por fim, a oportunidade que ele aguardava, Marquito, o motorista do “nosso” autocarro, dispôs-se a levar-me a passear. Mas uma contra ordem mandou-nos para o aeroporto buscar as senhoras do grupo de dança Wino wa Cikota que aguardavam, desde as 8 da manhã (!!!), pela partida da delegação do Ministério da Cultura para iniciarem a habitual performance de despedida.
Assim que entraram no autocarro o “chefe” do grupo que, sem eu saber, me conhecia de há muito, apresentou-me. Em saudação e por ser mulher (elas explicaram) cantaram para mim. Acompanhei com palmas e exibi o meu "- Nasakwila cinji". Os seus rostos mudaram; agora pertencíamos à mesma classe: mulheres bailarinas. Reparei nas escarificações que marcavam os rostos das mais idosas e fui dizendo, em voz baixa, o nome de cada um dos símbolos. Agradadas por eu saber sobre as marcas, insistiram para que eu lhes perguntasse segredos de mulheres. Não posso deixar de dizer da timidez “que fiquei com ela”.
E elas mandavam-me falar “- Hanjika!” e eu, devagar, perguntava. Até que uma delas afastou ligeiramente o pano que vestia e mostrou-me algumas das suas escarificações, sempre com cuidado para que os homens, sentados em mesa à parte, não lhe vissem o corpo. Falaram-me da wino wa kumenga, que é a dança que se dança com o marido na cama. Desafiaram-me, perguntando se eu queria fazer uma escarificação, advertindo-me que iria chorar muito de dor. Ensinaram-me, em voz sumida que dentro das máscaras afinal há um homem, ser humano, mesmo. Falavam muito, calmamente e sempre em ucokwe. Alguém traduzia quando eu não entendia. Faziam-me repetir as palavras e os verbos, tudo com a pronúncia e a forma gramatical certa. Senti que confiavam em mim. Não fotografei, nem filmei. Não estava programado e não quis profanar aquele momento de intimidade tão único. Embora já tivesse aprendido quase tudo quer nos livros, quer em outras situações anteriores, a forma como decorreu foi para mim como uma primeira vez.
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Mas o maior desafio foi a dança.
Horas depois, enquanto a delegação se despedia com todas as formalidades e mesuras hierárquicas, como manda o protocolo, eu dançava a ciyanda com elas, descalça, na pista do aeroporto, com um pano que me haviam atado à cintura.
Os políticos aproximaram-se sem eu perceber e quando me voltei… quis sair da roda, mas a mais velha do grupo não me deixou, ordenando-me em tom autoritário que ficasse.
Sem saber gerir a situação fui fazendo a minha coreografia, de forma a retirar-me, discretamente.
Entrei para o avião atrasada. Chovia gotas mornas. Ao contrário do que esperava, não fui “ralhada” pelo Ministro da Cultura. Gostou e manifestou-o naquele momento para todos ouvirem.
Eu tentava calçar as sandálias e apertar o cinto de segurança, ao mesmo tempo. O avião corria já pela pista.
Olhando para baixo, ainda pude distinguir alguns pontos fazendo um círculo. Eram elas, as mamãs do grupo Wino wa Cikota que, em ucokwe quer dizer, dança da tradição – a primeira dança: ciyanda.
ACGM
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