Pela sua mão fui integrada no grupo Kalofulofu
Wino wa Matemba.
Naquela tarde chovia. Muito. Fora e dentro do Cine Lwena. Mas nada impediu
a sessão. A sala apresentava-se desoladora. As escassas cadeiras
que haviam resistido estavam desventradas, com o recheio amarelo a aparecer,
esfarelado pelo tempo e pelos maus tratos. As placas do tecto balançavam
com o vento, embora logo tenha esquecido o medo de me cairem em cima.
Do écran, apenas sobrara a estrutura metálica; das colunas,
apenas as enormes caixas de madeira restavam, por onde a chuva escorria
agora em cascata. Mas sem inundar o palco, pois deslizava mansa e obediente
pelas escadas laterais vermelhas, de cimento.
Segui o cheiro a fumo. Lourenço estava a aquecer os tambores enquanto
o resto do grupo se vestia e fazia as pinturas no corpo, para que eu os
visse no seu melhor.
"- Assim... 'tás a aquecer os batuques p'ra quê?" perguntei,
sabendo de antemão a resposta. "- Ca
Kwimba!...", respondeu-me.
De repente, esqueci-me do meu trabalho de "investigadora". A
frieza de estar num teatro convencional acabara também. Rapidamente
o palco se transformou no lwanzo da aldeia. Tudo à volta desapareceu.
Só a chuva permanecia, morna.
Maleka mandou que me "ataviassem" e dois homens abeiraram-se
de mim colocando-me a mulamba e o muyia. Ordenou ainda que me pusessem
o cinto (muyia) maior, para que eu sentisse o peso daquele adereço
fundamental da dança Ciyanda. Todos acharam que me iria aleijar,
mas eu fiz questão de aceitar o desafio.
Os tambores estavam prontos. David colocou o seu muyia e posicionou-se
do meu lado direito.
Começámos. Maleka, em tom determinado, dava as Myanda (sing.
Mwanda) ou as ordens obrigatórias. O grupo acompanhava
cantando e batendo palmas. Sorriam, num misto de curiosidade e satisfação.
Não parei de dançar, seguindo sempre o David que, atento
aos meus movimentos, atendia também aos akwa
ngoma (tocadores de
tambor) os quais, por sua vez, ouviam o "chefe".
... Quando tive coragem de perguntar como me tinha saído, olhei
atentamente para os olhos de Maleka José, para o ouvir melhor: "-
Você foi bem, sim senhora. Já és quase uma kacokwe!" O
sorriso dele era bonito.
Foi o momento mais feliz da minha estadia pelas terras
do Moxico, antes de encontrar, no último dia, a cumplicidade das "mamãs" do
grupo Wino wa Cikota.
- ACGM
|