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Fragmentos de um diário de campo


Obrigada, Maleka!

Janeiro de 2006:
... No dia em que cheguei, alguém me apresentou o Maleka José: "- Este homem é que sabe das danças daqui. Domina tudo." Olhei para ele, pouco mais alto que eu; trazia um chapéu de palha, embora o tempo ameaçasse chuva. Cumprimentei-o e prometeu-me que me levaria onde eu quisesse para encontrar o que eu procurava. No trajecto para o almoço perdi-o e, quando lhe ligava para o telemóvel, ouvi do outro lado: "- Estou aqui."


(Noutras ocasiões comprovei a sua capacidade de aparecer sempre que era preciso, mas sempre sem se fazer notar. Aprendera na Mukanda a andar sem fazer barulho para não assustar a caça.)


Maleka era um homem atraente pelo que sabia e pela forma como se impunha no grupo. Dançava bem e tocava kwita .ouçam e vejam o instrumento kwita tocado por Maleka "- Passei 1 ano e meio na tradição!" dizia-me, orgulhoso, sempre que me sentia alguma desconfiança. Um verdadeiro chefe tradicional, sem o ser, de facto.

 

 

 

Pela sua mão fui integrada no grupo Kalofulofu Wino wa Matemba. Naquela tarde chovia. Muito. Fora e dentro do Cine Lwena. Mas nada impediu a sessão. A sala apresentava-se desoladora. As escassas cadeiras que haviam resistido estavam desventradas, com o recheio amarelo a aparecer, esfarelado pelo tempo e pelos maus tratos. As placas do tecto balançavam com o vento, embora logo tenha esquecido o medo de me cairem em cima.


Do écran, apenas sobrara a estrutura metálica; das colunas, apenas as enormes caixas de madeira restavam, por onde a chuva escorria agora em cascata. Mas sem inundar o palco, pois deslizava mansa e obediente pelas escadas laterais vermelhas, de cimento.


Segui o cheiro a fumo. Lourenço estava a aquecer os tambores enquanto o resto do grupo se vestia e fazia as pinturas no corpo, para que eu os visse no seu melhor.


"- Assim... 'tás a aquecer os batuques p'ra quê?" perguntei, sabendo de antemão a resposta. "- Ca Kwimba!...", respondeu-me.


De repente, esqueci-me do meu trabalho de "investigadora". A frieza de estar num teatro convencional acabara também. Rapidamente o palco se transformou no lwanzo da aldeia. Tudo à volta desapareceu. Só a chuva permanecia, morna.


Maleka mandou que me "ataviassem" e dois homens abeiraram-se de mim colocando-me a mulamba e o muyia. Ordenou ainda que me pusessem o cinto (muyia) maior, para que eu sentisse o peso daquele adereço fundamental da dança Ciyanda. Todos acharam que me iria aleijar, mas eu fiz questão de aceitar o desafio.
Os tambores estavam prontos. David colocou o seu muyia e posicionou-se do meu lado direito.


Começámos. Maleka, em tom determinado, dava as Myanda (sing. Mwanda) ou as ordens obrigatórias. O grupo acompanhava cantando e batendo palmas. Sorriam, num misto de curiosidade e satisfação.


Não parei de dançar, seguindo sempre o David que, atento aos meus movimentos, atendia também aos akwa ngoma (tocadores de tambor) os quais, por sua vez, ouviam o "chefe".

... Quando tive coragem de perguntar como me tinha saído, olhei atentamente para os olhos de Maleka José, para o ouvir melhor: "- Você foi bem, sim senhora. Já és quase uma kacokwe!" O sorriso dele era bonito.

Foi o momento mais feliz da minha estadia pelas terras do Moxico, antes de encontrar, no último dia, a cumplicidade das "mamãs" do grupo Wino wa Cikota.

- ACGM

 
 

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Hoje voltei ao Lwena


Sem perceber como, não tinha mais carga na minha máquina de filmar. Mordi-me, na raiva de ter falhado.
O chefe estava no chão, sentado. A kwita roncava à força dos seus músculos.


Num ataque daquele romantismo absolutamente dispensável nestas situações, quase acreditei que ele “não estava ali”; Os seus olhos pareciam parados, em êxtase.


O corpo, todo, estava envolvido naquela relação.


Lembrei-me que a máquina de fotografar também captava imagens em movimento.


David Mpwia, Jacinto e Francisco Gabela tomavam conta dos outros instrumentos: ngoma ya kasasulwilo, lundamba (uma espécie de dikanza, mas em metal) e os mikakaji (sing. mukakaji) para marcar o “contra tempo”.


Mas Maleka estava atento. Longe de estar “fora de si”, controlava os músicos, os bailarinos e os meus movimentos - que tanto tentei discretos.


Quando terminou, perguntou-me: Filmaste tudo?


Tinha-se apercebido de que, naquele momento, eu apenas me concentrara na performance dos músicos.
Hoje voltei ao Lwena. Tive saudades.


Enquanto lá estive choveu todos os dias e eu dancei com o grupo Kalofulofu Wino wa Matemba...


Foi bom.

ACGM.

 
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